quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Acará disco como na natureza


Acará disco como na natureza
cardume de discos Rio Madeira

 



O acará disco na natureza, de uma forma geral, possui um habitat bastante específico e estável. Conforme já mencionado, trata-se de um peixe exclusivamente encontrado (pelo menos até onde se tem notícia) na bacia amazônica.

Desta forma, por se tratar de um eco-sistema bem particular, por mais amplo que seja o habitat, as características são bastante semelhantes. Buscaremos demonstrar que as principais características dos discos (inclusive as de natureza psíquica, como a timidez) estão intimamente relacionadas com a sua posição no ciclo de vida onde está inserido.
Habitat natural





O disco e seu habitat natural

1) Clima e temperatura da água
O clima predominante na bacia amazônica é o tropical. Situada na linha do equador, a região possui uma temperatura média anual entre 24º e 32º Celsius. O índice de brilho solar anual também é bastante elevado, girando em torno de 1.500/2.600h. Como a bacia é localizada em uma região de florestas, com grande quantidade recursos hídricos, a umidade também é alta, ficando entre 80% a 88%. Por fim, o índice pluviométrico (de chuvas) é bastante elevado: 1.500mm a 3.000mm.

As variações climáticas decorrentes das diferentes estações não têm, em tese, um impacto altamente significativo sobre a temperatura das águas bacia, pelo menos não ao ponto de influir no bem estar do acará disco. Como a temperatura do ambiente tem relação direta com a temperatura da água, essa também tende a ser estável. O mais marcante nas mudanças de estações é o fenômeno da estiagem, que acarreta a diminuição do volume de água dos rios e a formação de lagoas.

Justamente por não haver alterações de grande monta na temperatura (sem invernos rigorosos, por exemplo) o acará disco não desenvolveu um organismo resistente à oscilações bruscas calor-frio.

Segundo a Teoria da Evolução Darwiniana, um organismo com alta resistência à oscilações de temperatura, não seria necessário ao disco, tendo em vista as baixas variações no seu habitat.

Da mesma forma, os discos criados em cativeiro possuem um organismo pouco resistente às alterações bruscas de temperatura. Apesar de serem mais adaptáveis a situações um pouco diferentes das do habitat natural dos discos, são criados e desenvolvidos em cativeiro a menos de um século. Em se tratando de evolução de espécies é quase nada. O acará disco vive na bacia amazônica a um tempo que a ciência ainda não conseguiu desvendar de forma segura, sofrendo adaptações voltadas à sobrevivência em seu habitat natural. Por isso mesmo, o disco nascido e criado em cativeiro, mesmo nunca tendo tocado suas barbatanas na bacia amazônica, precisará de um “pouco mais” de tempo para poder se adaptar a mudanças bruscas de temperatura da água. A genética dos discos selvagem é bastante marcante nos “recém-nascidos” discos de cativeiro.

2) Parâmetros de água
A idéia inicial, ao falarmos sobre a água, foi escolher um rio onde haja uma relativa população de acarás disco, para analisar de forma detalhada suas características e, com base nestas, tentar confirmar ou desmentir o pouco se sabe acerca dos “gostos” do acará disco.

Rio escolhido: Madeira.
Rio madeira

Uma vultuosa pesquisa científica realizada por Furnas, e as empresas Oderbrecht e Leme, sobre o impacto ambiental resultante da implantação das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, resultou em um relatório que contém uma completa caracterização da bacia hidrográfica do rio madeira no trecho compreendido entre as cidades de Abunã e Porto Velho.

Essa se deu da seguinte forma: vários postos de medição foram instalados ao longo da área pesquisada. Amostras de água foram colhidas em cada um entre os períodos de 2003 e 2004. Foram feitas coletas em alguns rios da região relacionados com o madeira, chamados na pesquisa de tributários. Posteriormente foram os resultados compilados e divulgados.

Embora realizada para um fim completamente diferente do aqui vivenciado, tal pesquisa, serve para comprovar de forma mais fundamentada, o que já é afirmado no mundo do aquarismo acerca dos “gostos” acará-disco.

Os dados numéricos e estatísticos, disponibilizados e analisados nesse tópico foram dela extraídos.

O rio madeira tem uma extensão de 3.240 Km (em torno de 1.425Km em território brasileiro). Foi em sua parte central que a expedição organizada pelo ictiologista Johann Jacob Ernest Heckel, descobriu a primeira espécie de disco, classificada como symphysodon Discos discos (heckel).

Apresenta um relevo típico de rio de planalto (alto madeira – pouquíssimo navegável – desde suas cabeceiras até a cachoeira de santo Antônio, a 7km de Porto Velho, devido a grande quantidade de cachoeiras) e de rio de planície (a partir desse trecho, até sua foz no rio ama- zonas, onde é perfeitamente navegável).

2.1) Volume de água: o volume de água é bastante elevado no madeira, contribuindo com 15% da descarga total líquida do rio amazonas.

2.2) Visibilidade: o rio madeira é escuro (barrento) durante boa parte do ano, em razão da cara de sedimentos que transporta. Troncos de árvores, raízes e elementos da floresta estão entre os principais sedimentos. Na época das cheias, com o aumento do fluxo de água e conseqüentemente, da correnteza, a quantidade de sedimentos transportados também aumenta a água fica mais escura.

2.3) Pureza: apesar das águas escuras, a sua qualidade é considerada boa, inclusive para o consumo humano.

Amônia
Abaixo o resultado da medição do nível de amônia no rio madeira (em oito estações de coleta) e em alguns rios tributários.

O resultado é impressionante, pois apesar de todos os detritos e sedimentos que caem no rio, a água é praticamente livre de amônia.

Em um laboratório de testes chamado Laborett, da empresa Tetra (uma das mais conceituadas fabricantes de produtos para aquários do mundo), dentre os quais há o de amônia, resultados para a quantidade de amônia encontrada são divididos em 05 níveis:

1) 0,00 mg/L (ausência de amônia)-------------------------condição ideal
2) 0,25 mg/L--------------------------------------------------crítico para os peixes
3) 1,25 mg/L (5 vezes o nível anterior)----------------------perigoso, pode causar a morte dos peixes
4) 3,00 mg/L (mais de 2 vezes o nível anterior)-------------idem do anterior
5) 5,00 mg/L (quase duas vezes o nível anterior)-----------letal para a maioria dos peixes

Segundo o teste, para que possa haver a morte do peixe é necessário em torno de, no mínimo, 1,25 mg/L de amônia dissolvida na água, ou seja, quase cinco vezes mais do que a medição mais alta realizada no rio madeira.

Quanto aos seis rios tributários analisados (para não se afirmar que o rio madeira é uma e exceção), o resultado foi ainda mais surpreendente. Nenhuma das vinte e oito amostras deu amônia dissolvida a um nível superior a 0,25 mg/L.

A média em todas as medições, por seu turno, não superou a casa dos 0,15 mg/L de amônia dissolvida. O mesmo se pode dizer para a variação sazonal média.

Provado por amostragem, desta forma, a quase completa ausência (a ponto de ser insignificante) de NO3 (amônia) nas águas em que o acará disco vive.

Nitrato
Nitrato é o resultado da decomposição do nitrito. “Apesar de ser virtualmente não tóxico, o nitrato é o nutriente chave para algas e altas concentrações podem ser danosas aos peixes”.

Segundo uma reportagem publicada no site peixesornamentais.info, intitulada O importante é conhecer a água, é relatado que o nitrato “não apresenta efeitos tóxicos adversos para peixes, quando em concentrações inferiores a 90 mg/L.”

Foi constatado que a concentração de nitrato no rio madeira e nos tributários não chega a 1,0 mg/L, e menos de 0,5 mg/L, ou seja, 180 vezes menos do que poderia se considerar danoso aos peixes.

Conclusões quanto à pureza da água
Com base nos dados acima, podemos chegar à conclusão de que as águas onde o disco vive, apesar de serem escuras, são consideradas extremamente limpas (até mesmo para o para o consumo humano), com pouquíssima presença de coliformes fecais e totais, além de níveis praticamente insignificantes de amônia e nitrato. Daí a explicação de sua fragilidade diante da presença de elementos tóxicos como a amônia. A teoria da evolução pode ser aplicada, também nesse caso.

Ora, se o habitat natural do disco oferece água de excelente qualidade, não há necessidade de qualquer sistema orgânico no peixe que o torne mais resistente a água de baixa qualidade (como as encontradas em boa parte dos aquários).

Eis a explicação do motivo pelo qual o Betta Splendens (vulgo peixe betta) tem tamanha resistência à amônia e o disco não. O habitat natural do Betta é bem diferente do habitat do disco. Aqueles são encontrados nas águas estagnadas, mal-oxigenadas e de qualidade ruins dos arrozais na Thailândia, Sri Lanka, etc. Como não poderia deixar de ser, em razão do ambiente em que está naturalmente exposto, o Betta desenvolveu em organismo bem mais resistente à amônia. Caso contrário, não sobreviveria.

Obs.: Apesar de não haver no estudo medições acerca do nitrito, levando-se em consideração o ciclo do azoto, podemos concluir que em razão das baixíssimas quantidades de amônia e de nitrato, o nitrito deve estar presente, da mesma forma, em níveis insignificantes no rio madeira.

2.4) PH
Outro fator que merece atenção é o PH da água. Diz-se que o disco é um peixe de água ácida, ou seja, com PH inferior a 7,0. O PH alcalino também pode ser letal ao disco, principal- mente aos selvagens.

Muito se fala sobre o ambiente altamente ácido que o disco vive na natureza. De fato, alguns rios da amazônia, como o Tefe, tem um PH em torno de 5,0. Os rios tributários aqui analisa- dos, têm PH’s que vão de ácidos (ex.: Jaciparaná, em torno de 6,0) a bastante ácidos (ex.: Cotia, de 4,5 a 5,5).

Já o rio madeira, ao menos nos oito pontos onde foram feitas as medições, possui um PH que varia de ácido a levemente alcalino (entre 6,3 a 7,2). Pasmem!

Então esse negócio de que os discos vivem só em água ácida não é sério? Não... é seriíssimo.

Análise realizada nos rios tributários, todos têm água ácida. No rio madeira, muito embora em algumas épocas e em alguns trechos apresente água levemente alcalina, a maioria das amostras revelou água ácida (mesmo que levemente).

Outra coisa muito importante é o fato de que, certamente, a alteração no PH não se dá de forma brusca, mas de acordo com o avançar e retroceder dos períodos de seca e estiagem. De fato, percebe-se uma variação considerável no nível do PH na água dos rios analisados, mas isso não leva de forma alguma a concluir que essas alterações são bruscas.

Podemos, com base nos dados aqui apresentados, concluir que o disco tem uma “suportabilidade” a níveis de PH que vão do ácido ao levemente alcalino (7,2, por exemplo). Isso não é mistério para quem cria acará disco. Conheço criadores que têm discos de cativeiro em água com PH em torno de 7,4, e eles estão, pelo menos aparentemente, bem. Claro que não é a melhor água, mas eles sobrevivem (pelo menos esses).

Mais do que um PH levemente alcalino, o que o disco não suporta mesmo são as alterações bruscas desse fator, pois isso não ocorre na natureza.

Algo que pode gerar diferenciações entre as subespécies dependendo do local onde forem encontradas (e seus derivados em cativeiro) é a capacidade de cada uma tolerar PH mais, ou menos, ácido. Os discos do rio Tefe, que tende a ser bem mais ácido do que o rio madeira, certamente não têm a tolerância ao PH levemente alcalino que os discos do madeira podem ter.

Esse fator vai, muito provavelmente, influenciar as espécies criadas em cativeiro. Dependendo da “descendência selvagem” da categoria, essa poderá ser mais ou menos tolerante ao PH levemente alcalino. Agora, variação brusca, podemos afirmar que não faz bem a nenhum disco.

2.5) Dureza da Água
Outro fator de grande relevância para o acará disco é o nível de dureza da água. Segundo consta do conteúdo explicativo incluso no Tetratest Laborett “a dureza geral (GH) da água é a media de sais de cálcio e magnésio (nela dissolvidos). Esses sais influenciam diretamente no metabolismo dos peixes, plantas e microorganismos. A água com altos níveis de cálcio e magnésio é denominada dura e com baixos níveis desses elementos, mole. A maioria dos peixes vive em durezas que variam entre 6 a 16° dH. (...). Um nível entre 3 a 10° dH é recomendado para a maioria dos peixes tropicais. Em água salgada, recomendam-se valores entre 8 a 10°.”

No tocante ao disco, quanto mais baixo o dH, ou seja, quanto mais mole a água melhor. O site acaradisco.com.br, quanto à dureza da água, traz algumas informações interessantes:

“A dureza da água segue as seguintes linhas de orientação. A unidade dH significa “grau de dureza”, enquanto ppm significa “partes por milhão”, o que é sensivelmente equivalente a mg/L de água. 1 unidade dH equivale a 17,8 ppm CaCO3. (...).

Dureza Geral
0 – 4 dH, 0 – 70 ppm: muito macia
4 – 8 dH, 70 – 140 ppm: macia
8 – 12 dH, 140 – 210 ppm: dureza média
12 18 dH, 210 – 320 ppm: alguma dureza
18 – 30 dH, 320 – 530 ppm: dura

Superior: rocha líquida (Lago Malawi e Los Angeles, CA)”

Vamos converter os dados acima em mg/L, tendo em conta que 1 mg/L equivale a 1 ppm (CaCO3 = carbonato de cálcio).

Até 70 mg/L de CaCO3 – muito macia
De 70 a 140 mg/L de CaCO3 – macia
De 140 a 210 mg/L de CaCO3 – dureza média
De 210 a 320 mg/L de CaCO3 – alguma dureza
De 320 a 530 mg/L de CaCO3 – dura

Superior: rocha líquida.

A concentração média de cálcio no rio madeira, fica em torno de 5 mg/L. Nos tributários, menos de 1 mg/L. Segundo a tabela de conversão acima, a água é considerada muito macia até 70 mg/L. Conclusão: a água em que o disco vive é muito, mais mui- to macia.

3) Predadores Naturais
O habitat natural do acará disco é recheado de predadores. Jacarés, ariranhas, sucuris e alguns peixes maiores têm o disco como alimento.

Como o disco lida com esses predadores?

Para tentar chegar a uma resposta, vejamos uma radiografia do acará disco:



Com base na imagem acima, que mostra em detalhes a parte óssea do disco, podemos verificar a ausência de defesas físicas contra predadores. O máximo que o disco tem são as barbatanas inferior e superior como espécies de prolongamentos naturais das vértebras e, por isso, um pouco duras. Entretanto, parece que essa defesa não é muito eficaz quando pensamos em jacarés ou sucuris.

Uma das principais formas de defesa de presas frágeis no mundo natural é viver no anonimato. Um peixe pequeno, por exemplo, tem uma facilidade maior para perto de qualquer barranco. Uma vez perseguido por um predador, poderá encontrar alguma saliência para se esconder. Já para o acará disco, que pode chegar a 20 cm de diâmetro, isso não é uma tarefa tão fácil (apesar do tamanho acabar sendo, algumas vezes, uma forma de meter medo ou afastar predadores).

Se lhe falta um organismo hábil para o ataque e se o seu tamanho também não o ajuda a se esconder, há alguma coisa que esse peixe poderia fazer para se defender? A resposta é: fazer o que ele faz vivendo onde ele vive.

Em primeiro lugar o disco vive em cardume. Essa é uma estratégia de defesa. Quem nunca viu no Discovery Channel aqueles cardumes enormes de peixes marinhos todos juntos para confundir predadores?

Em segundo lugar, ele vive em meio de galhos de árvores mortas que caem no rio. Certamente ele estará mais protegido de predadores em um labirinto de galhos, um labirinto que ele conheça bem.

O acará disco parece ter tanta consciência do perigo de viver onde vive que, quando está cuidando de seus ovos, analisa cada um detidamente. Qualquer defeito constatado (o que pode significar uma má formação e um disco com problemas), o leva a comer o ovo. Certamente se desse ovo nascesse um disco com problemas, seria presa fácil para os predadores. Os alevinos, alimentam-se de uma capa protéica no flanco de seus pais. Talvez para evitar que esses se dispersassem em busca de alimento e permaneçam o mais perto possível de seus pais enquanto ainda muito pequenos.

Vários rios onde os discos vivem possuem águas escuras (como o madeira) e os locais onde são encontrados, muitas vezes estão expostos à luz indireta do sol. Quanto menos luz, mais fácil se esconder. Não encontrei nada sobre a visão do disco, mas penso, por tudo isso, que devem ter uma boa visão ou outro sentido de orientação que compense uma visão não muito boa, para sobreviverem, em regra, em ambientes de águas escuras e não muito iluminadas. Uma coisa é certa: Eles são superalertas.

Por fim, de que adianta viver no meio de galhos e troncos escuros se temos um azul estridente como um disco Blue Diamond, ou um branco perfeito como o White Diamond? Precisa perguntar porque nunca foram encontrados discos com esse tipo de cor na natureza? Como leigo, penso que seja esse o motivo pelo qual as cores dos discos selvagens tanto se assemelham com as do seu habitat natural. Certamente um White Diamond não sobreviveria muito tempo nos rios da amazônia.

A conclusão que se chega é que o disco, por tudo o que se disse aqui, não sobreviveria em seu habitat natural se não fosse cauteloso (tímido segundo alguns), desconfiado e difícil de ganhar a confiança. Ele não é um peixe fresco como alguns afirmam, só “dança conforme a música”. Se não dançar conforme a música (a música da sobrevivência) vai acabar dançando de outro jeito.

4) Alimentação
A alimentação do disco em seu habitat natural é bastante diversificada. Já vi alguns afirmarem que se trata de um peixe carnívoro (e tratá-los como carnívoro), mas na verdade ele é onívoro. O acará-disco alimenta-se de frutos que caem na água, pequenos crustáceos, etc. Como não é um peixe de atividade muscular intensa, como o salmão, seu gasto energético não é tão alto, ainda mais levando-se em consideração a temperatura da água onde vive.

Especificamente quanto aos discos criados em cativeiro, sabe-se que muitos são alimentados por seus criadores com alimentos não encontrados em seu habitat natural, como os patês. A artêmia salina (um dos pratos prediletos dos discos em cativeiro) também não é encontrada em rios de água doce. Rações também não. Em resumo, quase nada do que um acará disco de aquário se alimenta faz parte de sua dieta natural. Talvez seja por isso que discos selvagens sejam tão resistentes à alimentação usada em aquários.

Por ser um peixe onívoro e de alimentação diversificada, nada melhor do que diversificar a alimentação do disco nos aquários. É certo que o patê de coração de boi ou peito de peru levam o peixe a um crescimento rápido. Por outro lado, há relatos de criadores que alimentam seus peixes exclusivamente com patê e que perceberam, apesar do tamanho grande, uma coloração desbotada nesses, já na fase adulta e até mesmo infertilidade. Devemos nos lembrar ainda dos altos níveis de hormônio que a carne bovina disponível no mercado contém. Mesmo a artêmia, que é comprovadamente muito protéica, não contém todos os nutrientes (principalmente minerais) necessários ao bom desenvolvimento dos discos.

Desta forma, o cardápio do disco deve ser bastante variado. O mercado oferece várias opções que vão desde diversas rações, patês, alimentos liofilizados como blood worms o tubifex, artêmias, daphinias, spirulina (excelente suplemento), etc.

Discos em cativeiro
É inegável que o disco nascido e criado em cativeiro possui uma capacidade de adaptação a ambientes diferentes dos rios da bacia amazônica, maior do que os discos selvagens que vão viver em aquários. São menos tímidos e desconfiados, aceitam melhor os alimentos industrializados, etc.

Porem, apesar de terem nascido em aquários, continuam sendo acarás disco, e por isso a semelhança orgânica com seus primos da natureza é bastante relevante. Apesar de nunca terem visto uma ariranha, têm o instinto de se esconderem entre os troncos do aquário ao menor sinal de perigo. Apesar de não precisarem se camuflar para não serem encontrados por sucuris, uma iluminação muito forte os incomoda e os deixa inseguros.

Nunca deve ser esquecido o ensinamento dos que sustentam que a melhor forma de ter sucesso na criação de discos é tentar reproduzir, ao máximo o seu habitat natural.

Além do que já se falou sobre o habitat dos discos, merece destaque um trecho do livro Aquário de Água Doce, de Sérgio Gomes, onde esse, em primeira pessoa e falando especifica mente do acará disco, relata:

“Heiko Blear, um pesquisador mundialmente famoso, aquarista doente e explorador de novas espécies de peixes, dono de uma das revistas mais belas do mundo, chamada Acqua Geographia, esteve palestrando em um seminário que organizei aqui no país, chamado Seminaqua, e foi taxativo em sua palestra:”Onde os discos vivem, existe pouquíssima luz – este o motivo pelo qual pouco ou nada se sabe a respeito do comporta- mento destes peixes na natureza, não existem pedras a quilômetros de distância, e muito menos plantas. O que existem são areias no fundo, raízes, árvores mortas e troncos.”. Depois de saber isso, nunca mais me senti tranqüilo ao colocar um disco em um aquário bem iluminado, densamente plantado e cheio de outros peixes, mesmo sabendo, e vendo com meus próprios olhos, belíssimos discos em aquários assim.“

Afinal, de que o disco gosta?
1) A água deve ser de excelente qualidade, ou seja, livre de traços de amônia, nitrito e nitrato. Para isso, quanto maior o aquário, melhor. É essencial a presença de mecanismos de filtragem eficazes e trocas parciais rigorosas para se manter a água em níveis ideais.

2) O disco gosta de água ácida, apesar de alguns poderem viver em água com PH quase neutro ou até mesmo levemente alcalino. O ideal, em se tratando de discos em cativeiro, seria mantê-los em água com PH entre 6,2 a 6,8. Um PH abaixo disso pode prejudicar a biologia do aquário, bem como acarretar a perda de alguns nutrientes. Um PH alcalino pode ser arriscado, pois não dá para garantir uma boa adaptabilidade.

3) A água macia (até 70 mg/L de CaCO3 dissolvido) é muito importante. Os peixes de água doce em geral (excetuando-se alguns como os Ciclídeos africanos, por exemplo) tendem a tolerar águas mais mole, enquanto os marinhos necessitam de água com um nível de dureza maior. Já o disco vive tem em seu habitat natural águas com concentração de CaCO3 de até 05 mg/L, ou seja, extremamente mole.

4) A iluminação deve existir, mas não muito ser intensa. Isso pode ser um problema quando se tem determinadas espécies de plantas no aquário. A água cor-de-chá, geralmente encontrada na natureza seria uma boa, mas não é indispensável desde que se tenha uma iluminação moderada. Nada de HQI em aquário de discos.

5) A decoração do aquário não deve ser muito extravagante ou perigosa (com pedras pontudas, etc...). O disco se assusta com facilidade e devemos evitar um que esse se machuque batendo em adornos meramente decorativos. Concordo integralmente com a opinião do Sérgio Gomes. Alguns troncos, pedras inofensivas (se for o caso) e cascalho ou basalto no fundo (já que dependendo da areia a taxa de fosfato pode se elevar muito) são suficientes. Não é preciso de muita coisa em um aquário de discos para chamar a atenção e nem é preciso dizer o motivo...

6) Também não sou muito partidário de se manter discos em aquários densamente plantados. Se não é tão fácil manter um aquário com os parâmetros ideais para os discos, a situação pode se complicar quando no mesmo ambiente se tem plantas que também exigem cuidados especiais, como muita iluminação (ruim para os discos), injeção de CO2, que pode facilmente alterar alguns parâmetros da água, etc. O solo de um aquário plantado merece um tratamento especial e muitas vezes é impossível sifoná-lo, o que acarretará, se a biologia do aquário não for muito boa, uma elevação nas taxas de amônia e nitrito. Algo bom que as plantas fazem é eliminar o nitrato. Mas isso pode ser feito com trocas parciais, que devem necessariamente ocorrer. Ainda sobre plantas naturais, Dick Au em seu Livro dos Discos, se mostra bastante resistente a tê-las em aquário de discos.

“Muitos criadores iniciantes de discos esperam mantê-los em um tanque comunitário decorado com plantas uma vez que nada pode ser mais impressionante do que alguns discos brilhantes coloridos entre plantas e troncos em um aquário bem iluminado. Embora os discos possam ser mantidos e até mesmo procriados com sucesso num aquário decorado, existem muitas desvantagens. É Muito mais difícil manter um tanque com plantas limpo e livre de poluição. Para promover o crescimento rápido, criadores de discos tendem a alimentá-los freqüentemente e excessivamente. Com o freqüente uso da mistura de coração bovino, prevenir sobras de comida num tanque decorado com plantas torna-se um trabalho impossível. Discos pequenos criados em um tanque com muitas plantas podem tornar-se muito tímidos e difíceis de manter. Também é muito mais difícil de observar e examinar visualmente as doenças de seu peixe se ele estiver em um tanque decorado com plantas. Se seu peixe adoecer, tratá-lo em um aquário plantado também será uma tarefa muito mais difícil. Você terá que se preocupar com a reação das plantas a medicações. Algumas das medicações destruirão o processo de filtragem biológica e tornarão a camada de cascalho uma fonte de poluição. Remover peixes doentes e alevinos do tanque é outro problema. Os discos nadam rápido e pegá-los irá inevitavelmente soltar as plantas.”

7) Aquários comunitários também podem significar problemas. O disco possui características comportamentais bastante específicas, nada devagar, se alimenta devagar, além de na natureza viver entre seus pares. Desta forma, acho que o melhor companheiro para um disco é outro disco. Nada de Neons nadando freneticamente de um lado para outro e muito menos outros peixes que não tem nada haver com o ambiente onde o disco está inserido, como os Kinguios. Acarás-Bandeira são utilizados por alguns criadores para estimular os discos a se alimentarem mais agressivamente. Isso até vale (pensando-se exclusivamente nesse fim), mas tem que ser bandeiras bem menores que os discos. Depois que os discos já estão comendo melhor, não deixaria os bandeiras crescerem no aquário.
Agora entendemos porque as vezes se torna tão complexo criar estes peixes em cativeiro.
Texto extraido:httpwww.forumacaradisco.com.br        

2 comentários:

  1. Muito esclarecedor. Excelente publicação!

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  2. Ótimo texto, mas faltou uma informação. Foi falado a temperatura ambiente aonde os discos vivem, entretanto faltou citar a temperatura da água desses ambientes.

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